sábado, 11 de abril de 2020

Como saber o que é real, verdade, mentira, fake news ou fantasia?



O mundo nunca esteve tão virtual como nos últimos dias, e ao mesmo tempo, as notícias nunca me pareceram tão doloridamente reais. O número de óbitos cresce no mundo todo, ao mesmo tempo, que uma estúpida disputa política acontece no Brasil.  Não consigo deixar de pensar no desperdício de energia que isso causa. Seria tão mais fácil que os diferentes se ouvissem, se respeitassem e adotassem medidas razoáveis. Mas, já disse meu personagem preferido de todos os tempos, e sem medo de parecer piegas, cito o Pequeno Príncipe: “ As pessoas grandes são, definitivamente, muito bizarras”!
Ao assistir os noticiários, impossível não compartilhar da mesma opinião: as pessoas grandes são, de fato, bizarras. Mas não as crianças. As crianças são o que há de melhor no mundo. E, por alguma razão que a ciência ainda não compreende, estão sendo poupadas de complicações causadas pelo COVID-19. Gosto de estar perto de crianças, gosto de escrever para crianças, gosto de saber que meu trabalho de alguma forma, ajuda as crianças a crescerem com mais saúde, seja, física ou emocionalmente.
Acredito que cabe a cada um de nós, adultos, vez por outra, bizarros, zelar pelas crianças e pelo mundo que deixaremos para elas. Que mundo irá ficar? Que mundo estamos construindo? Que história estamos escrevendo? Tenho mais perguntas que respostas. Tenho mais incertezas que certezas, mas tenho, acima de tudo (sem medo de parecer piegas de novo) esperança.
Acredito que dentro de cada um de nós, ainda habita a criança que um dia fomos. A criança que se encanta quando vê a imagem de um golfinho nos canais de Veneza. Parece que a imagem é fake news, mas não deixa de ser encantadora. Indianos conseguem ver o pico do Himalaia pela primeira vez, depois de 30 anos, por causa da dimunioção da poluição. Não sei se é verdade, mas isso me faz sorrir.  
Se desse para preferir algum tipo de fake news, essas seriam as minhas preferidas. E ouso, incluir mais uma “Fadas foram vistas passeando pelo mundo dos humanos. Uma delas, de cabelos e botas cor de rosa, pedia para autora mais uma história. ” A autora ainda não se pronunciou, finalizava a notícia. Será fake news ou a mente fantasiosa de uma autora em quarentena?

domingo, 29 de março de 2020

Quem sairá dessa pandemia?


Olho ao redor e vejo um mundo dividido, as opiniões e convicções nos dividem. Nunca desejei tanto o caminho do meio pregado por Buda. Ou isolamento social, ou economia ativa. Ou carreata, ou panelaço. Ou discussão na rede social, ou bloqueio de quem pensa diferente. Será que há um jeito de manter as pessoas protegidas e a economia ativa? Talvez com diálogo, sim. Talvez com soluções criativas, sim. Talvez com uso de tecnologia, sim.

Eu sou otimista, acredito que é possível! Basta que os diferentes, se ouçam. Como aprendi há muito tempo, toda história tem no mínimo dois lados, e os dois lados podem estar certos ao mesmo tempo. Tudo depende do ponto de vista e do lugar que a pessoa ocupa.  Precisamos conversar mais e discutir menos. Uma história precisa de mais de um personagem para que seja escrita.   


No meio de tudo isso, tenho apenas uma certeza, ninguém sairá da pandemia do mesmo jeito que entrou. Algo irá mudar dentro e, com isso, as mudanças do lado de fora também irão aparecer. Impossível passar por uma crise, sem parar para pensar, sem refletir sobre a vida e, nesse caso, também sobre a morte. Apesar das estatísticas mostrarem que o grupo de risco são as pessoas mais velhas, alguns casos de óbitos de “jovens” aparecem no noticiário. Seriam os pontos fora da curva? Pelo jeito, então, existe a possibilidade de sermos também esse ponto.  Como não parar para refletir? E toda reflexão transforma.

Como escritora, acredito no poder da palavra, acredito que a palavra tem poder mágico que toca as pessoas e aciona algo dentro delas. Por isso sou apaixonada por histórias, inúmeras vezes chorei lendo um livro. Se a palavra tem o poder de fazer chorar, tem o poder de fazer rir, de emocionar e de curar. Escrevo para curar, não aos outros, mas a mim mesma.

Quando tive câncer, há muitos anos, busquei nos livros algumas respostas. Lembro especialmente do “Por um Fio, de Dráuzio Varella”. O que ficou para mim, após a leitura, foi uma grande reflexão que carrego até hoje: Porque as pessoas precisam saber que estão morrendo – ou podem morrer em breve -  para começar a viver? Em tempo de pandemia e projeções de números de mortos, como não pensar nisso? E me pego escrevendo uma lista de coisas que quero fazer quando tudo isso passar. Vai passar.

Não há para onde fugir. Então, o jeito é ficar e encarar com leveza, prontidão e bons pensamentos. Na última semana, me mantive em isolamento social, estou trabalhando em casa, trabalhando muito, mas em casa. Quando finalmente saio do computador, preciso me distrair, por isso fico procurando na televisão programas leves. Não quero ver noticiários.

Dias desses, achei uma reprise do Chapolin Colorado (me julguem!), quando as pessoas em perigo perguntam: “E, agora, quem poderá me defender? ” Ele aparece.  No nosso caso, não tem Chapolin, nem nenhum outro herói.  Mas, tenho uma resposta, por isso refaço a pergunta:

- E, agora, quem poderá nos salvar?  Nós mesmos. A humanidade irá salvar a humanidade.

E isso é lindo!!




sábado, 27 de junho de 2015

Love wins


Ela, ali, estancada, no meio da sala, com as mãos bem guardadas no bolso e o coração contido pelo casaco abotoado, perguntava a si mesma, se o tecido era realmente capaz de conter o som, não de um coração, mas de infinitos corações que insistiam em bater todos ao mesmo tempo, fazendo com que manter uma conversa fluindo fosse um trabalho árduo. Some a isso a necessidade de permanecer com as mãos fincadas no bolso para garantir que elas, como borboletas, ao identificar a luz dos vagalumes que brilhavam a sua frente, não saíssem em revoada de encontro a eles. Mais de uma vez, ela precisou desviar os olhos, para retomar o fôlego. E foi por muito pouco que não sucumbiu em um desses momentos, que em busca de ar, respirou o cheiro que vinha dele. Do discurso, mil vezes ensaiado, poucos linhas foram ditas, deixou algumas palavras por escrito, mas delas lembra pouco, não quis reler, por receio de perder a coragem. Em determinado momento, empolgada pelo cheiro inebriante do carvalho, e do aguardente que evapora, se distraiu, e as borboletas escaparam do seu bolso, dançando no ritmo da história que escapava da sua boca, enquanto não apenas duas folhas, mas um bosque inteiro surgia a sua frente. E ela, ali, estancada, no meio da sala, tentando em vão ouvir, falar, sentir e caminhar, não foi capaz de dar dois passos, limitou-se a gentilmente guardar as mãos no bolso. Na despedida, voltou, ele não viu, mas no segundo em que se aproximou para deixar um beijo, ela fechou os olhos e aspirou bem fundo para guardar o cheiro. E o que ela ganhou com tudo isso?  Ah, ela ganhou a chuva e o sol.

*foto de Ihotim do facebook - por causa da foto descobri que Inhotim tem um Jardim de Letras - mais do que nunca, preciso conhecer esse lugar. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Big Fish, o Amor, a tristeza triste e a volta da alegria em 4 Atos


1º. Ato
”Elis me disse que não é a voz que canta. Quem canta é o coração”.
Foi no “Tributo a Elis” - #elis70 - que Renato Teixeira  compartilhou com a plateia encantada o que aprendeu com Elis. O show foi lindo, repleto de histórias emocionantes, a tecnologia a favor da memória. No palco, grandes nomes da música brasileira e suas histórias incríveis. Na tela, Elis, a voz, carisma e magia. Apresentações inéditas, duetos inesquecíveis, ontem e hoje, passado e presente ao mesmo tempo no palco. Aliás, o tempo passou a ser um mero detalhe sem importância. E o coração lá, cantando feliz!
2º. Ato
Zapeando na televisão. Um telecine qualquer. Algo chama a minha atenção. Paro. Na cena, um palestrante fala para algumas pessoas. O assunto é superar a perda de um ente querido. Na cadeira, um homem  grande e forte chora ao falar da perda do filho. Diz que não consegue seguir adiante. Que não sabe por onde começar. O palestrante pergunta: o que você é? Ele responde: um construtor. E o que um construtor faz? Constrói. Então, é isso que você vai fazer. Reconstruir. Tijolo por tijolo.
Do lado de cá, com o controle remoto na mão, me pergunto: o que você é? Escritora. E o que uma escritora faz? - lágrimas nos olhos. tão óbvio -  Uma escritora escreve, oras.
3º. Ato
Conversando com o Vini antes de dormir, pergunto para ele. Filho, o que te deixa triste? Ele pensa um pouco e cita algumas coisas. Presto atenção, faço notas mentais. Pergunto onde ele sente a tristeza. Ele aponta o coração. E o que te deixa feliz? Ele sorri. Enumera, uma a uma, as coisas que o deixam feliz. Presto muita atenção. Felicidade de filho é coisa séria. E o que você faz quando está triste? Ele me olha, como se a resposta fosse algo tão óbvio, que não entende como é que eu posso fazer esse tipo de pergunta. Quando eu estou triste, eu faço as coisas que me deixam feliz. E ai eu fico feliz. 
4º. Ato
Adoro tomar banho. Sempre tenho ideias no chuveiro. E em tempos de tristeza, é um dos melhores lugares para as lágrimas. Lava-se por dentro e por fora. Foi tomando banho que pensei em uma das minhas cenas de amor preferidas do cinema. Ao ser devidamente apresentada a esse filme, não poderia ser diferente, paixão imediata, ao filme e ao responsável pela apresentação. Ao me lembrar do filme, da cena, das histórias, da minha história, do amor e das flores amarelas. Pingo e lágrimas. Banho, água, chuva, pingo e lágrimas, tudo misturado. Saí do banho e ainda enrolada na toalha, fui até o computador e digitei no google: I don´t think I´ll ever dry out.   



domingo, 26 de abril de 2015

A arte tem esse poder, porque a vida não basta.



Estou arrebatada. Acabei de assistir ao Sal da Terra, o documentário sobre Sebastião Salgado. 
Há alguns anos, um amigo me apresentou ao mundo das fotografias. Lembro-me especialmente de uma foto de Henri Cartier Bresson: um beco, um homem e um gato. Foi divertido imaginar a história por trás da foto. Criamos várias narrativas para esse diálogo inusitado entre homem e gato. Discordávamos sobre o conteúdo da conversa, mas com um fato havia total concordância: a foto contava uma história.
Lembrei da foto de Cartier quando visitei a exposição das fotografias de Sebastião Salgado. No dia que visitei, me peguei pensando nas histórias por trás das imagens. Como escritora, sempre acabo colocando palavras no que vejo. A luz da foto, é a letra do escritor. 
Finalmente, conheci algumas histórias. As imagens ganharam palavras. Desde a primeira foto, na primeira história, meu coração já estava disparado. Lutei para conter as lágrimas.  Serra Pelada. Milhares de pessoas. Milhares de histórias.
Quanto sofrimento pode suportar os olhos e o coração de um homem? Não sei o que me impressionou mais. As palavras, as histórias, as imagens, a vida ou a morte. Milhares de pessoas, milhares de histórias, a imensidão. Gênesis ao contrário. A morte mostrando que há vida. A vida prevalecendo ao desejo da morte.
O sagrado e o profano lado a lado.  A vida. A morte. O silêncio. O escuro. A luz. Fim. Pisquei os olhos imaginando que pudesse fotografar o momento. Uma foto capaz de contar a história de um coração que batia desesperado ...

A arte tem esse poder, porque a vida não basta. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Todos Juntos Somos Fortes

Faço parte de uma geração privilegiada. Assistia a Monteiro Lobato no Sitio do Pica-pau Amarelo ao chegar da escola. Lembro-me de um álbum, vinil, versão do Mauricio de Souza para Romeu e Julieta, ou seja, Shakespeare com os personagens queridos da infância.  Não posso deixar de mencionar A Arca de Noé. Vinicius, Toquinho, João Gilberto e, lógico, Chico Buarque.

Sei que só tive acesso a tudo isso, porque tenho uma família especial, pais que sempre incentivaram a leitura e a cultura. E o que tudo isso tem a ver com o momento familiar que estou vivendo? Com a recuperação do meu pai? E com o poder que a família tem?

Tudo.

Quando éramos pequenos, eu, meus irmãos e meus pais, gravamos uma versão familiar dos Saltimbancos, do Chico Buarque. Para cada membro da família, coube um personagem. Meu pai era o Jumento, minha irmã, a Gata. Eu, a Galinha. Meu irmão, com apenas dois ou três anos, auxiliado por minha mãe, era o cachorro. E cabia a ele dizer: au au au au au. A gravação foi feita em uma fita cassete, infelizmente, perdida. 

Hoje percebo que foi lá, naquelas noites musicais, que aprendi que Todos Juntos Somos Fortes! Ontem, ao chegar a Campo Grande com minha irmã, com a intenção de dar uma força e ficar mais perto da família, entendi a música. Entendi a lição iniciada há tantos anos. Desde que tudo isso começou, cada membro da família vem desempenhando um papel, papéis diferentes e complementares. Cada um com sua personalidade. Cada um com sua função, trazendo para recuperação do meu pai mais força.

Como diz na música:

“Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
- Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer”

E assim, vamos para mais uma fase da recuperação. E assim, ficaremos para sempre, pois Todos Juntos Somos Fortes!

À família querida, mãe, irmãos, cunhados, tias, tios, primos, filho, sobrinhos, enfim, todos que têm participado tão ativamente dessa recuperação. Aos amigos de sempre, de dor e delícias. Aos amigos que há muito não tínhamos notícias, que ligaram, escreveram, oraram. Mostrando que amizade de verdade, independe de convivência. Amigos de todas as religiões, de todas as crenças, e até, sem crenças, torcendo, vibrando, desejando o bem. Uma prova de que são várias pontes, que levam a um só lugar. A um só Deus. A uma só força. A todas essas pessoas, meu mais profundo e verdadeiro obrigado!

A música termina assim:

E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.



Saltimbancos queridos, muito obrigada!



domingo, 11 de janeiro de 2015

MEUS HOMENS CHORAM


Há 11 anos, no dia de Reis, 06 de janeiro, nasceu a mãe que sou. Nunca soube explicar e talvez seja algo inexplicável mesmo. Assim que coloquei meus olhos no meu filho, um amor que eu não sabia que existia dentro de mim, surgiu. Bastou um segundo, para o maior amor do mundo fazer morada na mãe que eu acabava de me tornar.  Mãe e filho nasceram no mesmo instante, 11 anos depois, parece que apenas pisquei os olhos. Mas, não é disso que a vida é feita? Piscadelas.  “A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos...”
Em um dessas piscadelas, vi meu filho chorando, choro sentido, lágrimas escorrendo pelo rosto. Coração de mãe em pedaços. Sei que não dá para evitar todas as lágrimas, sei que os obstáculos da vida são grandes, existem pedras no caminho, existe decepção e insensatez. Mas, aquelas lágrimas, por incrível que possa parecer, mostraram que meu filho é um lindo ser humano. E que está crescendo, que é capaz de sentir e de manifestar seus sentimentos. Isso, é algo tão importante para crescer saudável, que preciso, mesmo de coração partido, celebrar aquelas lágrimas.
Um dia depois, saio correndo para socorrer meu pai, uma cirurgia simples, que acabou não sendo tão simples. Do aeroporto vou direto ao hospital. De onde escrevo nesse momento. Dor, muita dor, e lágrimas. De dor, de cansaço, de raiva ... Dor que não passa. E, na mesma semana  que vi meu filho chorando, vejo meu pai. De novo, impotente. Não sei o que fazer, e a resposta vem certeira: segura na mão dele e chora também. 
Não chorei, mas entendi que a resposta é muito mais simples. Que a lição que meu filho e meu pai me deram foi muito maior do que a dor. Quando estamos dispostos a aprender, o amor sempre será maior que a dor. É uma questão de escolha.

A pessoa da resposta certeira, nesse momento, chora também, porque meus homens choram, enquanto me ensinam.