domingo, 13 de março de 2022

Quando a doença vira verbo.


A pandemia transformou a doença em verbo. 

Eu covidei, tu covidates, o mundo covidou. 

Lembra quando estudamos que verbo é ação? Pois é, não para o Covid. 

Covidei e parei.  Não de imediato. Fiquei em casa Isolada, mas não parada. Nos primeiros dias, segui trabalhando, quis ignorar a presença do vírus, estava com sintomas leves, dor no corpo, dor de cabeça, cansadinha e com muita raiva. Os outros sintomas eram explicados pelo vírus, mas porque sentia raiva?


Mais de um mês depois do positivo, ainda não sei... acho que o covid me deixou lenta, de corpo e alma. 

No sétimo dia piorei, entrei na tal fase inflamatória, parecia uma sinusite, com otite, com labirintite, laringite, tosse e raiva.  Entendi que deveria dar tempo para meu corpo se recuperar, precisava descansar. Mandei uma mensagem para todos do trabalho avisando que ficaria off. Sabem o que isso significa no mundo de hoje? Senti orgulho de mim mesma. 

Finalmente parei. Depois de dois anos frenéticos, parei. O mesmo coronavírus que em janeiro de 2020 me fez acelerar como nunca, em janeiro de 2022, me fez parar. Dois lados da mesma doença.


Recebi muito carinho e cuidado. Recebi carinho de pessoas que nunca imaginei que receberia. E não recebi de outras que achei que receberia. Acho que o covid é assim, desperta o melhor de alguns e o pior de outros. Afinal, não se pode dar o que não se tem. 

O covid é uma doença contraditória até nisso. Te deixa isolada e sozinha quando você precisa do cuidado dos outros. E não tem jeito, tive que fazer por mim mesma. Impõe o autocuidado para a sobrevivência. Entrei em uma pira louca de manter tudo em ordem ao meu redor. Passei aspirador, lavei roupa, lavei louça por dias, até que cansada, desisti de manter a casa em ordem e fui cuidar dos estragos causados por dois anos de pandemia em mim.

Viver a pandemia “de dentro” de um hospital traz uma visão muito peculiar da situação. Em várias dimensões. Temos informações “privilegiadas”. O que muitas vezes não faz nada bem, pois a ignorância pode ser uma benção. Traz urgência e muita responsabilidade. Tínhamos que dar resposta a várias necessidades da organização. Percebo agora que minhas necessidades, foram ficando esquecidas no cantinho...

Lembro de início de tudo isso, reunidas no Marketing do Pequeno Príncipe, ainda sem saber de tudo que viria pela frente, ainda acreditando que passaria logo.  Preparando materiais, informações, hot site, cartazes, e-mails, para equipes da linha de frente. Para investidores, para familiares dos pacientes... Tantos protocolos, tanta insegurança, as pessoas ávidas por esclarecimentos. Ninguém tinha certeza de nada... vivíamos dias loucos.  

E no meio desses dias loucos, me perdi. Me perdi de mim mesma e do meu propósito. Desviei o rumo e apesar de ser útil e necessária no hospital, não fui para mim mesma.

Quando a pandemia começo, fui ingênua e acreditei que o mundo seria um lugar melhor, que as pessoas iriam entender o que é importante. Acreditei na evolução, na melhora coletiva. Como humanidade, sabe? Mas, como todos sabemos hoje, não foi bem assim ... há uma guerra para provar isso. Infelizmente.

Quando eu tive câncer, há muitos anos, parei, refleti, revi, mudei. Imaginei que as pessoas que passaram pelo covid, foram internadas, precisaram de oxigênio também repensariam suas vidas ... e se todos repensassem, mudaríamos. A pandemia, então, que trouxe tantas consequências para tudo e todos, poderia, enfim, fazer algum sentido. Não fez. 


Mas, acho que para mim, acabou fazendo. E talvez seja isso mesmo, pequenas mudanças de muitas pessoas que pode resultar em grandes mudanças. Acho que foi o Dalai Lama que disse: seja você a mudança que quer ver no mundo. Espero que eu consiga ser. 

Estou mudando, a raiva ainda está aqui, mas estou tentando usá-la a meu favor. Estou tratando pequenas sequelas no corpo e na alma. Tenho pressa para retomar o rumo, refazer o caminho, voltar para as coisas que me são caras. Mas estou lenta, tenho que respeitar meu corpo, equilibrar a pressa com o descansar. É isso, para descovidar é preciso tempo. Pra mim e para o Mundo.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Olhando para o futuro e aprendendo com o passado.



Essa não é a primeira pandemia que eu testemunho. Nem a sua. Você talvez não se lembre, muitas pessoas não lembram. Estou falando da Pandemia do H1N1 em 2009. Acho que em Curitiba foi pior. Além disso, eu já trabalhava no Hospital Pequeno Príncipe e uma pandemia decretada sempre tem impacto para profissionais ligados à saúde.

Trabalho no setor de Marketing e, em 2020, assim que foi decretada a Pandemia do Novo Coronavírus, o Pequeno Príncipe adotou muitas medidas de proteção e segurança: visitas aos pacientes e as atividades dos voluntários foram suspensas. Protocolos foram criados. Decretos adiaram cirurgias e consultas e muitas outras mudanças. Toda essa informação precisava chegar aos colaboradores, pais, médicos, enfim, toda sociedade.

Foi aí que lembramos da Pandemia de 2009. E buscamos nos arquivos do passado as referências do que havíamos feito. Achamos vários comunicados, cartazes, e-mails com explicações, datas, protocolos. Teve um cartaz em especial que me chamou atenção. Fiz questão de mostrar para as pessoas que estavam comigo na sala. E no meio daquele momento caótico e incerto, o cartaz nas minhas mãos trazia luz e esperança. Era necessário aprender com o passado. Sempre é. 

O comunicado dizia mais ou menos assim: Com a diminuição dos casos de H1N1, vamos retomar as seguintes atividades: e seguia a lista ...

Olhei a data do primeiro material que eu tinha em mãos, e olhei para data deste cartaz que me trazia esperança. Alguns meses os distanciavam. Mas, aquele cartaz era a prova concreta que a pandemia teve fim. E isso encheu meu coração de um sentimento bom. Era uma certeza, no meio de tantas incertezas. Aquele cartaz virou um símbolo para mim.

Nos meses que se passaram após aquilo. Nos momentos mais difíceis, nos dias que pareciam que não ter fim, eu me lembrava daquele cartaz - As atividades serão retomadas. Passou em 1918. Passou em 2009. E agora também vai passar. É preciso olhar para o futuro.

Sim, há muitas perdas, muitas mortes, muitas sequelas, muitas tristezas, mas também muitas vitórias, muitas superações, muitas alegrias, e sobretudo, muita esperança.

Vai passar é um mantra que repito todos os dias.


Sim! Vai passar! Mais cedo ou mais tarde, chegaremos ao fim dessa pandemia também. Está sendo muita mais longa e infinitamente mais difícil que em 2009. Mas ela chegará ao fim. As medidas de proteção ainda são necessárias.  Usar máscara não é o novo normal, mas o necessário. Higienizar as mãos nem deveria ser um cuidado do momento, deveria ser de sempre. O distanciamento social é o mais difícil e odiado, porém precisa ser adotado.

Desejo de todo coração, em breve, fazer de novo aquele cartaz: As atividades serão retomadas.  E se cada um fizer a sua parte, vai passar mais rápido!


O futuro está logo ali.
 
 


sábado, 11 de julho de 2020

Um papo sincero sobre essa p* toda!


Está confuso? Está confuso. Está demorado? Está demorado. A gente não sabe o que vai acontecer? A gente não sabe o que vai acontecer. Dá medo? Dá muito medo. Tem dia que fica mais difícil? Tem muitos dias difíceis. Mas vai passar? Vai!! Vai passar!
Vivemos tempos de muitas perguntas difíceis e poucas respostas originais. Tempos de dúvidas enormes e certezas bem pequenas. Mas, acho que são as certezas pequenas que nos enchem de esperança. Vai passar é uma delas e virou meu mantra, que repito várias vezes ao dia. Vai passar!
E enquanto essa p* toda não passa, não tem outro jeito, vamos vivendo um dia de cada vez. Tem dia que a gente chora, tem dia que ri, tem dia que bebe uma garrafa de vinho e no outro faz suco verde e dieta detox. E, no meio de tudo isso, podemos aprender algo novo, assistir mil lives e ouvir podcast. Pode-se também desconectar, ler um livro e fazer jardinagem (já matei uma muda de hortelã e outra de alecrim, mas não vou desistir). Queria ter habilidades manuais, um hobby como amigurumi, mas, por enquanto vou ficar apenas com as palavras e algumas mudas de temperos.
Tenho focado em ser uma pessoa melhor, pelo menos essa p* toda pode servir para algumas mudanças importantes. Dizem que a recompensa da paciência é a própria paciência, faz sentido.  
Enquanto essa p* toda não passa, eu te conto da minha janela – como pede a música bonitinha da AnaVitoria, que termina assim: “Eu fiz essa canção, amigo. Pro mundo inteiro se curar!”
Que assim seja!

*Onde está P*, leia-se Pandemia.

sábado, 4 de julho de 2020

O que faz sentido para você?



A vida segue seu curso. A natureza não sabe que a gente parou. Ela segue alheia ao nosso isolamento, quarentena, afastamento social. A vida simplesmente segue. O outono chegou, as folhas caíram, o inverno veio, os dias esfriaram, as noites cresceram, tudo seguiu como se não houvesse pandemia. E para natureza realmente não há.
Não sei para você, mas a pandemia já me ensinou um monte de coisas. Revi minhas prioridades, se tudo pode mudar de uma hora para outra - como devidamente demonstrado - porque ainda fazer certas coisas sem sentido? A família faz sentido, ter tempo para cuidar da saúde faz sentido, valorizar pequenos prazeres do dia a dia faz sentido. Viver estressada, triste e angustiada, não faz sentido.
Me lembro de ter uma conversa no final do ano passado, as vésperas de férias planejadas por meses, 20 dias pela Europa. Eu estava tão absurdamente cansada que não queria férias, não queria fazer turismo, não queria nada ... A minha preocupação era: será que vou conseguir curtir alguma coisa? Imagina a situação de esgotamento. Só percebi isso agora. Definitivamente, não faz sentido.  
Nunca olhei tanto o horizonte, nunca olhei tanto pela janela. Sei que sou privilegiada por poder trabalhar em casa, tenho trabalhado muito, mas estou em casa. Sair de casa passou a ser um evento, a gente estranha a rua. Estranha até coisas antes banais: colocar roupa para sair, sapato de salto, maquiagem. Parece que desaprendeu como era a antiga rotina. A nova rotina parece fácil e difícil ao mesmo tempo. A nova rotina traz desafios e aconchegos. Como tudo. Mas parece fazer sentido.
Ontem, na meditação que adotei diariamente, o Tadashi disse que é muito grato ao coronavírus, que se não fosse a pandemia, não teria conhecido e meditado com mais de 40.000 mil pessoas. Ele disse que estava precisando dessa pausa, e percebi que eu também. Percebi que a gratidão é algo muito mais especial que a palavra da moda. E para não esquecer fiz uma lista de tudo que sou grata, bom ou ruim, que a pandemia me trouxe. Tudo ensina. E enquanto isso, a natureza segue majestosamente alheia. Ainda bem.

domingo, 31 de maio de 2020

Então, estamos quites.



Logo no início da pandemia, eu estava na farmácia com meu filho. Do meu lado, uma família: mãe, filha adolescente e irmão mais novo. Acho que o menino tinha uns 9 anos. Ele, com voz alta e gestos rápidos, tentava convencer a mãe a comprar um máscara para ele. A mãe distraída não ouviu o apelo. Ele pegou a máscara que estava no balcão, e colocou na cesta de produtos que a irmã carregava. A mãe tirou a máscara e disse algo que não pude ouvir. Foram para o caixa. Eu fiquei olhando a cena, podia ouvir a respiração ofegante do menino, queria ajudar. Vi que ele estava com medo, eu também estava. Mas não consegui fazer nada.
Tenho uma caixa do livro Dicionário Ilustrado de Sentimentos no carro, quis correr para pegar um livro e dar para ele, talvez o ajudasse a entender o que estava sentindo. Talvez ajudasse a mãe a ajudar o menino. Mas não tive coragem desse gesto. Fiquei com receio da reação da mãe. Não deveria, mas fiquei e me arrependo. Penso sempre nesse menino, e torço para que ele esteja bem.
Sim, ando reflexiva. Mas acho que isso não é algo que só ocorre comigo. Talvez o mundo esteja refletindo. Acredito de verdade que o mundo está mudando para melhor. Que a adversidade está ensinando um novo modo de ser e agir. Acredito porque sou otimista. Mas acho que acredito nisso também porque comigo está sendo assim. E temos essa mania estranha de achar que o que acontece com a gente pode estar acontecendo com o outro.  Será?
Na tentativa de assistir alguma live essa semana – como assim que vou passar a quarentena sem assistir uma live ou fazer um curso? – consegui navegar por várias, nessa frenética tentativa de ver tudo, sem realmente ver nada. Mas uma vontade ficou ao ver o que as pessoas estão fazendo: preciso oferecer o meu melhor para o Mundo.  E se não bastasse a vontade, tem aquela voz que fala comigo quando medito. Sim, ouço vozes. Já que estamos aqui fazendo confissões.
A voz diz muitas coisas. Na verdade é uma voz que conhece pouco a palavra silêncio. Ela diz que posso ajudar as crianças. Ela diz que devo ajudar. Ela fala sobre sentimentos. E, sobretudo me manda falar sobre sentimentos com as crianças.  
E acho que desde a cena da farmácia estou gestando esse projeto que a voz insiste em me lembrar. Pelo menino da farmácia e por tantos meninos e meninas que precisam entender o que estão sentindo. Assim posso tentar dar o meu melhor, sou das palavras e são palavras que tenho para dar.
Ontem dei o primeiro passo concreto em direção a isso. É assim que um caminho se faz não é? Passo a passo.
Então, voz, estamos quites?

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quem você está ouvindo nessa pandemia?




Alienei. Parei de ver notícias na televisão. Não estava me fazendo bem. Depois de um dia louco de trabalho, a última coisa que quero ver é o número crescente de óbitos ou ainda as insanidades daquele que não deve ser nominado. Então, optei por não ver mais noticiários.  
Cada vez mais, acho que temos a obrigação de buscar coisas que nos façam bem. Se não cuidarmos de nós mesmo, quem cuidará? Parece pensamento de autoajuda, e é mesmo. E daí?
Em tempo de pandemia, o julgamento dos outros interessa menos. Ou deveria interessar. O isolamento tem me feito olhar para dentro. Lamentar menos e buscar mais sentido na vida. Se é o que temos para o momento, como fazer que seja o melhor possível? No meu caso, com um pouco de alienação externa, mas muita conexão interna.
Pelo que estou entendendo, vivemos muito mais uma “doença crônica” do que “crise aguda”. Não sou especialista em isolamento social, mas me parece que em alguns lugares, como Curitiba, está dando certo. Mas dar certo, faz com que o pico da curva demore mais a chegar. O sucesso tem consequências, como tudo nessa vida.
O momento pede paciência, e diz um ditado que gosto: “a recompensa da paciência, é a própria paciência”. Tenho aprendido a respirar mais. Estou meditando todos os dias (as 6 horas da manhã e às 20h, com o @tatadashikadomoto). Aprendi a olhar pela janela e ver além do horizonte. E, ontem, aprendi algo bem importante: a ouvir meu coração e meu corpo.
Era final de semana de pós-graduação, que tem sido online, “fui” para aula no sábado, no final do dia estava exausta. Meu corpo gritava: descanso! E minha cabeça dizia: tem que ver a aula, depois terá que repor, você consegue. E minha alma gritou: descanso!!
Em outros tempos, a cabeça seria vitoriosa, mas em tempos de conexão comigo mesma, coração e alma foram ouvidos. Não “fui” para aula. E tive um excelente dia de quase “dolce far niente”.
E você, está ouvindo quem??

domingo, 10 de maio de 2020

Será que é assim que uma revolução começa?


Lembro-me que passei uma semana esperando minha menstruação descer, em nenhum momento imaginei que pudesse ser gravidez. Mas depois de 7 dias, será? Ainda incrédula, comprei o teste na farmácia. Não contei para ninguém. Domingo de manhã, Dia das Mães com minha mãe me visitando em Curitiba. A minha irmã, há 15 dias havia anunciado gravidez. Lógico que estou imaginando, pensei. Atrasou por sugestionamento. Escondi o teste na bolsa e fui ao banheiro. Meu coração batia enlouquecido, ele já sabia, lógico. Coração sempre sabe. Sabe de tudo.
Positivo! Meu primeiro Dia das Mães se confirmou.
Chamei minha mãe, segredo só é bom quando a gente conta para alguém.
*16 anos depois*
Dia das mães em época de Covid-19. Tudo em nesta pandemia parece ter gosto diferente. Existe, lá fora, uma realidade alterada, meio surreal até.
Uma das datas de varejo mais importantes para o comércio, reinventada. Novos jeitos de demonstrar amor. Menos material, talvez. Afeto de mil maneiras novas, é assim o amor, sempre dá seu jeito. E se tem mãe envolvida na história, tudo parece mais fácil e possível. Todo mundo gosta de ganhar presente, mas, dessa vez, o que todos mais queriam era a presença. E de algum forma, aconteceu.
Passe os olhos pelas redes sociais, é amor que se diz? É amor que se vê! 
Esse 10 de Maio de 2020 jamais será esquecido. Será que é assim que toda transformação começa? Será assim que uma revolução é feita? O coração, enquanto escrevo, bate enlouquecido. Ele sabe a resposta. Ele sempre sabe. Que pena que a gente ouça tão pouco o que ele tem a dizer.
Que venham tempos novos, reinventados, revisitados, repensados, reconectados, reparados, reutilizados, relidos, refeitos, reinaugurados. Enfim, a revolução está ai...
Feliz e abençoado Dia das Mães.

sábado, 25 de abril de 2020

Se o mundo parou, como que as mudanças aceleraram?



Tive uma excelente aula na pós-graduação de Neurobusiness  no final de semana passado, primeira vez online. Nunca fui muito fã de EAD, mas no último mês, tudo mudou. Depois de zilhões de reuniões por zoom, hangouts, whatsapp, facetime, mudei de opinião. E “fui” para aula feliz.
Sempre gostei de estudar, adoro o gosto que aprender deixa na boca, acho que nunca vou me saciar. Li uma vez, não lembro onde, sobre alguém que se não tivesse aprendido uma coisa nova no dia, não conseguia dormir. Levantava para abrir a enciclopédia e só depois de ter aprendido algo, voltava para cama.
A aula foi especialmente importante, não só pelo conteúdo, que foi ótimo.  Acho que o isolamento reforça a bolha que vivemos, assistimos, ouvimos, consumimos o mesmo. E ter a oportunidade de ouvir outras histórias, ver o mundo por outras perspectivas, aprender com experiências bem sucedidas dos outros, é ótimo. Faz pensar e transforma, constrói um novo lugar de fala. Que é sempre bom. (obrigada prof e colegas!)
A pandemia é uma só, porém, percebo que cada pessoa vivencia de uma forma diferente. A pandemia está no mundo inteiro para todos, ao mesmo tempo em que nos iguala nos diferencia. Vejo pessoas se reinventando, vejo empresas se reinventando, usando a criatividade e outras mil estratégias para passar por isso de um jeito melhor. Ao mesmo tempo em que vejo pessoas e empresas olhando estáticas para o copo vazio, sem saber o que fazer.
Tenho conversado com amigos, que também estão em homeoffice, e todos, sem exceção, dizem que estão trabalhando muito. E o trabalho em casa, embora, cheio de prós, não respeita horários, e lá se vai um expediente de 12 horas... (por isso que só consegui escrever uma semana depois)
O mundo nunca mais será o mesmo, as pessoas jamais serão as mesmas. O mundo parou, mas as mudanças aceleraram. Parecia algo improvável de acontecer, como pode haver tanta mudança com o mundo parado?? O fato, é que não parou. Porque a vida sempre dá um jeito de continuar. Somos provas disso.  

sábado, 11 de abril de 2020

Como saber o que é real, verdade, mentira, fake news ou fantasia?



O mundo nunca esteve tão virtual como nos últimos dias, e ao mesmo tempo, as notícias nunca me pareceram tão doloridamente reais. O número de óbitos cresce no mundo todo, ao mesmo tempo, que uma estúpida disputa política acontece no Brasil.  Não consigo deixar de pensar no desperdício de energia que isso causa. Seria tão mais fácil que os diferentes se ouvissem, se respeitassem e adotassem medidas razoáveis. Mas, já disse meu personagem preferido de todos os tempos, e sem medo de parecer piegas, cito o Pequeno Príncipe: “ As pessoas grandes são, definitivamente, muito bizarras”!
Ao assistir os noticiários, impossível não compartilhar da mesma opinião: as pessoas grandes são, de fato, bizarras. Mas não as crianças. As crianças são o que há de melhor no mundo. E, por alguma razão que a ciência ainda não compreende, estão sendo poupadas de complicações causadas pelo COVID-19. Gosto de estar perto de crianças, gosto de escrever para crianças, gosto de saber que meu trabalho de alguma forma, ajuda as crianças a crescerem com mais saúde, seja, física ou emocionalmente.
Acredito que cabe a cada um de nós, adultos, vez por outra, bizarros, zelar pelas crianças e pelo mundo que deixaremos para elas. Que mundo irá ficar? Que mundo estamos construindo? Que história estamos escrevendo? Tenho mais perguntas que respostas. Tenho mais incertezas que certezas, mas tenho, acima de tudo (sem medo de parecer piegas de novo) esperança.
Acredito que dentro de cada um de nós, ainda habita a criança que um dia fomos. A criança que se encanta quando vê a imagem de um golfinho nos canais de Veneza. Parece que a imagem é fake news, mas não deixa de ser encantadora. Indianos conseguem ver o pico do Himalaia pela primeira vez, depois de 30 anos, por causa da dimunioção da poluição. Não sei se é verdade, mas isso me faz sorrir.  
Se desse para preferir algum tipo de fake news, essas seriam as minhas preferidas. E ouso, incluir mais uma “Fadas foram vistas passeando pelo mundo dos humanos. Uma delas, de cabelos e botas cor de rosa, pedia para autora mais uma história. ” A autora ainda não se pronunciou, finalizava a notícia. Será fake news ou a mente fantasiosa de uma autora em quarentena?

domingo, 29 de março de 2020

Quem sairá dessa pandemia?


Olho ao redor e vejo um mundo dividido, as opiniões e convicções nos dividem. Nunca desejei tanto o caminho do meio pregado por Buda. Ou isolamento social, ou economia ativa. Ou carreata, ou panelaço. Ou discussão na rede social, ou bloqueio de quem pensa diferente. Será que há um jeito de manter as pessoas protegidas e a economia ativa? Talvez com diálogo, sim. Talvez com soluções criativas, sim. Talvez com uso de tecnologia, sim.

Eu sou otimista, acredito que é possível! Basta que os diferentes, se ouçam. Como aprendi há muito tempo, toda história tem no mínimo dois lados, e os dois lados podem estar certos ao mesmo tempo. Tudo depende do ponto de vista e do lugar que a pessoa ocupa.  Precisamos conversar mais e discutir menos. Uma história precisa de mais de um personagem para que seja escrita.   


No meio de tudo isso, tenho apenas uma certeza, ninguém sairá da pandemia do mesmo jeito que entrou. Algo irá mudar dentro e, com isso, as mudanças do lado de fora também irão aparecer. Impossível passar por uma crise, sem parar para pensar, sem refletir sobre a vida e, nesse caso, também sobre a morte. Apesar das estatísticas mostrarem que o grupo de risco são as pessoas mais velhas, alguns casos de óbitos de “jovens” aparecem no noticiário. Seriam os pontos fora da curva? Pelo jeito, então, existe a possibilidade de sermos também esse ponto.  Como não parar para refletir? E toda reflexão transforma.

Como escritora, acredito no poder da palavra, acredito que a palavra tem poder mágico que toca as pessoas e aciona algo dentro delas. Por isso sou apaixonada por histórias, inúmeras vezes chorei lendo um livro. Se a palavra tem o poder de fazer chorar, tem o poder de fazer rir, de emocionar e de curar. Escrevo para curar, não aos outros, mas a mim mesma.

Quando tive câncer, há muitos anos, busquei nos livros algumas respostas. Lembro especialmente do “Por um Fio, de Dráuzio Varella”. O que ficou para mim, após a leitura, foi uma grande reflexão que carrego até hoje: Porque as pessoas precisam saber que estão morrendo – ou podem morrer em breve -  para começar a viver? Em tempo de pandemia e projeções de números de mortos, como não pensar nisso? E me pego escrevendo uma lista de coisas que quero fazer quando tudo isso passar. Vai passar.

Não há para onde fugir. Então, o jeito é ficar e encarar com leveza, prontidão e bons pensamentos. Na última semana, me mantive em isolamento social, estou trabalhando em casa, trabalhando muito, mas em casa. Quando finalmente saio do computador, preciso me distrair, por isso fico procurando na televisão programas leves. Não quero ver noticiários.

Dias desses, achei uma reprise do Chapolin Colorado (me julguem!), quando as pessoas em perigo perguntam: “E, agora, quem poderá me defender? ” Ele aparece.  No nosso caso, não tem Chapolin, nem nenhum outro herói.  Mas, tenho uma resposta, por isso refaço a pergunta:

- E, agora, quem poderá nos salvar?  Nós mesmos. A humanidade irá salvar a humanidade.

E isso é lindo!!




sábado, 27 de junho de 2015

Love wins


Ela, ali, estancada, no meio da sala, com as mãos bem guardadas no bolso e o coração contido pelo casaco abotoado, perguntava a si mesma, se o tecido era realmente capaz de conter o som, não de um coração, mas de infinitos corações que insistiam em bater todos ao mesmo tempo, fazendo com que manter uma conversa fluindo fosse um trabalho árduo. Some a isso a necessidade de permanecer com as mãos fincadas no bolso para garantir que elas, como borboletas, ao identificar a luz dos vagalumes que brilhavam a sua frente, não saíssem em revoada de encontro a eles. Mais de uma vez, ela precisou desviar os olhos, para retomar o fôlego. E foi por muito pouco que não sucumbiu em um desses momentos, que em busca de ar, respirou o cheiro que vinha dele. Do discurso, mil vezes ensaiado, poucos linhas foram ditas, deixou algumas palavras por escrito, mas delas lembra pouco, não quis reler, por receio de perder a coragem. Em determinado momento, empolgada pelo cheiro inebriante do carvalho, e do aguardente que evapora, se distraiu, e as borboletas escaparam do seu bolso, dançando no ritmo da história que escapava da sua boca, enquanto não apenas duas folhas, mas um bosque inteiro surgia a sua frente. E ela, ali, estancada, no meio da sala, tentando em vão ouvir, falar, sentir e caminhar, não foi capaz de dar dois passos, limitou-se a gentilmente guardar as mãos no bolso. Na despedida, voltou, ele não viu, mas no segundo em que se aproximou para deixar um beijo, ela fechou os olhos e aspirou bem fundo para guardar o cheiro. E o que ela ganhou com tudo isso?  Ah, ela ganhou a chuva e o sol.

*foto de Ihotim do facebook - por causa da foto descobri que Inhotim tem um Jardim de Letras - mais do que nunca, preciso conhecer esse lugar. 

terça-feira, 2 de junho de 2015

Big Fish, o Amor, a tristeza triste e a volta da alegria em 4 Atos


1º. Ato
”Elis me disse que não é a voz que canta. Quem canta é o coração”.
Foi no “Tributo a Elis” - #elis70 - que Renato Teixeira  compartilhou com a plateia encantada o que aprendeu com Elis. O show foi lindo, repleto de histórias emocionantes, a tecnologia a favor da memória. No palco, grandes nomes da música brasileira e suas histórias incríveis. Na tela, Elis, a voz, carisma e magia. Apresentações inéditas, duetos inesquecíveis, ontem e hoje, passado e presente ao mesmo tempo no palco. Aliás, o tempo passou a ser um mero detalhe sem importância. E o coração lá, cantando feliz!
2º. Ato
Zapeando na televisão. Um telecine qualquer. Algo chama a minha atenção. Paro. Na cena, um palestrante fala para algumas pessoas. O assunto é superar a perda de um ente querido. Na cadeira, um homem  grande e forte chora ao falar da perda do filho. Diz que não consegue seguir adiante. Que não sabe por onde começar. O palestrante pergunta: o que você é? Ele responde: um construtor. E o que um construtor faz? Constrói. Então, é isso que você vai fazer. Reconstruir. Tijolo por tijolo.
Do lado de cá, com o controle remoto na mão, me pergunto: o que você é? Escritora. E o que uma escritora faz? - lágrimas nos olhos. tão óbvio -  Uma escritora escreve, oras.
3º. Ato
Conversando com o Vini antes de dormir, pergunto para ele. Filho, o que te deixa triste? Ele pensa um pouco e cita algumas coisas. Presto atenção, faço notas mentais. Pergunto onde ele sente a tristeza. Ele aponta o coração. E o que te deixa feliz? Ele sorri. Enumera, uma a uma, as coisas que o deixam feliz. Presto muita atenção. Felicidade de filho é coisa séria. E o que você faz quando está triste? Ele me olha, como se a resposta fosse algo tão óbvio, que não entende como é que eu posso fazer esse tipo de pergunta. Quando eu estou triste, eu faço as coisas que me deixam feliz. E ai eu fico feliz. 
4º. Ato
Adoro tomar banho. Sempre tenho ideias no chuveiro. E em tempos de tristeza, é um dos melhores lugares para as lágrimas. Lava-se por dentro e por fora. Foi tomando banho que pensei em uma das minhas cenas de amor preferidas do cinema. Ao ser devidamente apresentada a esse filme, não poderia ser diferente, paixão imediata, ao filme e ao responsável pela apresentação. Ao me lembrar do filme, da cena, das histórias, da minha história, do amor e das flores amarelas. Pingo e lágrimas. Banho, água, chuva, pingo e lágrimas, tudo misturado. Saí do banho e ainda enrolada na toalha, fui até o computador e digitei no google: I don´t think I´ll ever dry out.   



domingo, 26 de abril de 2015

A arte tem esse poder, porque a vida não basta.



Estou arrebatada. Acabei de assistir ao Sal da Terra, o documentário sobre Sebastião Salgado. 
Há alguns anos, um amigo me apresentou ao mundo das fotografias. Lembro-me especialmente de uma foto de Henri Cartier Bresson: um beco, um homem e um gato. Foi divertido imaginar a história por trás da foto. Criamos várias narrativas para esse diálogo inusitado entre homem e gato. Discordávamos sobre o conteúdo da conversa, mas com um fato havia total concordância: a foto contava uma história.
Lembrei da foto de Cartier quando visitei a exposição das fotografias de Sebastião Salgado. No dia que visitei, me peguei pensando nas histórias por trás das imagens. Como escritora, sempre acabo colocando palavras no que vejo. A luz da foto, é a letra do escritor. 
Finalmente, conheci algumas histórias. As imagens ganharam palavras. Desde a primeira foto, na primeira história, meu coração já estava disparado. Lutei para conter as lágrimas.  Serra Pelada. Milhares de pessoas. Milhares de histórias.
Quanto sofrimento pode suportar os olhos e o coração de um homem? Não sei o que me impressionou mais. As palavras, as histórias, as imagens, a vida ou a morte. Milhares de pessoas, milhares de histórias, a imensidão. Gênesis ao contrário. A morte mostrando que há vida. A vida prevalecendo ao desejo da morte.
O sagrado e o profano lado a lado.  A vida. A morte. O silêncio. O escuro. A luz. Fim. Pisquei os olhos imaginando que pudesse fotografar o momento. Uma foto capaz de contar a história de um coração que batia desesperado ...

A arte tem esse poder, porque a vida não basta. 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Todos Juntos Somos Fortes

Faço parte de uma geração privilegiada. Assistia a Monteiro Lobato no Sitio do Pica-pau Amarelo ao chegar da escola. Lembro-me de um álbum, vinil, versão do Mauricio de Souza para Romeu e Julieta, ou seja, Shakespeare com os personagens queridos da infância.  Não posso deixar de mencionar A Arca de Noé. Vinicius, Toquinho, João Gilberto e, lógico, Chico Buarque.

Sei que só tive acesso a tudo isso, porque tenho uma família especial, pais que sempre incentivaram a leitura e a cultura. E o que tudo isso tem a ver com o momento familiar que estou vivendo? Com a recuperação do meu pai? E com o poder que a família tem?

Tudo.

Quando éramos pequenos, eu, meus irmãos e meus pais, gravamos uma versão familiar dos Saltimbancos, do Chico Buarque. Para cada membro da família, coube um personagem. Meu pai era o Jumento, minha irmã, a Gata. Eu, a Galinha. Meu irmão, com apenas dois ou três anos, auxiliado por minha mãe, era o cachorro. E cabia a ele dizer: au au au au au. A gravação foi feita em uma fita cassete, infelizmente, perdida. 

Hoje percebo que foi lá, naquelas noites musicais, que aprendi que Todos Juntos Somos Fortes! Ontem, ao chegar a Campo Grande com minha irmã, com a intenção de dar uma força e ficar mais perto da família, entendi a música. Entendi a lição iniciada há tantos anos. Desde que tudo isso começou, cada membro da família vem desempenhando um papel, papéis diferentes e complementares. Cada um com sua personalidade. Cada um com sua função, trazendo para recuperação do meu pai mais força.

Como diz na música:

“Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer
- Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer”

E assim, vamos para mais uma fase da recuperação. E assim, ficaremos para sempre, pois Todos Juntos Somos Fortes!

À família querida, mãe, irmãos, cunhados, tias, tios, primos, filho, sobrinhos, enfim, todos que têm participado tão ativamente dessa recuperação. Aos amigos de sempre, de dor e delícias. Aos amigos que há muito não tínhamos notícias, que ligaram, escreveram, oraram. Mostrando que amizade de verdade, independe de convivência. Amigos de todas as religiões, de todas as crenças, e até, sem crenças, torcendo, vibrando, desejando o bem. Uma prova de que são várias pontes, que levam a um só lugar. A um só Deus. A uma só força. A todas essas pessoas, meu mais profundo e verdadeiro obrigado!

A música termina assim:

E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.



Saltimbancos queridos, muito obrigada!



domingo, 11 de janeiro de 2015

MEUS HOMENS CHORAM


Há 11 anos, no dia de Reis, 06 de janeiro, nasceu a mãe que sou. Nunca soube explicar e talvez seja algo inexplicável mesmo. Assim que coloquei meus olhos no meu filho, um amor que eu não sabia que existia dentro de mim, surgiu. Bastou um segundo, para o maior amor do mundo fazer morada na mãe que eu acabava de me tornar.  Mãe e filho nasceram no mesmo instante, 11 anos depois, parece que apenas pisquei os olhos. Mas, não é disso que a vida é feita? Piscadelas.  “A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos...”
Em um dessas piscadelas, vi meu filho chorando, choro sentido, lágrimas escorrendo pelo rosto. Coração de mãe em pedaços. Sei que não dá para evitar todas as lágrimas, sei que os obstáculos da vida são grandes, existem pedras no caminho, existe decepção e insensatez. Mas, aquelas lágrimas, por incrível que possa parecer, mostraram que meu filho é um lindo ser humano. E que está crescendo, que é capaz de sentir e de manifestar seus sentimentos. Isso, é algo tão importante para crescer saudável, que preciso, mesmo de coração partido, celebrar aquelas lágrimas.
Um dia depois, saio correndo para socorrer meu pai, uma cirurgia simples, que acabou não sendo tão simples. Do aeroporto vou direto ao hospital. De onde escrevo nesse momento. Dor, muita dor, e lágrimas. De dor, de cansaço, de raiva ... Dor que não passa. E, na mesma semana  que vi meu filho chorando, vejo meu pai. De novo, impotente. Não sei o que fazer, e a resposta vem certeira: segura na mão dele e chora também. 
Não chorei, mas entendi que a resposta é muito mais simples. Que a lição que meu filho e meu pai me deram foi muito maior do que a dor. Quando estamos dispostos a aprender, o amor sempre será maior que a dor. É uma questão de escolha.

A pessoa da resposta certeira, nesse momento, chora também, porque meus homens choram, enquanto me ensinam.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O menino e o presente de Natal!


Há alguns anos, eu trabalhava em uma agência de marketing direto na área de atendimento. Apesar de gostar do que eu fazia e adorar meus colegas/amigos de trabalho, eu tinha uma grande insatisfação dentro de mim. Minha alma sentia falta de fazer algo que pudesse ajudar o Mundo a ser um lugar melhor.
Como não sou uma pessoa rápida para tomar decisões, passei alguns meses infernizando meus colegas. Até que tudo fez sentido. Lembro-me do exato momento em que tomei a decisão de pedir demissão.  Eu não sabia o que eu queria fazer, mas eu tinha total convicção que eu não queria mais fazer aquilo.
Como eu estava desempregada, sem saber o que fazer, comecei a pesquisar, ler, conversar com as pessoas, e finalmente, achei algo que fez meu coração acelerar: marketing cultural. Graças a vários acasos lindos do destino, lá fui eu fazer a produção local do Natal do HSBC.  E por meio do marketing cultural, conheci o marketing social e me apaixonei.
Naquela época, há mais de 10 anos, não sei como é hoje, as crianças que cantavam nas janelas eram crianças de lares e projetos de Curitiba, algumas afastadas dos pais por medidas de segurança. Crianças carentes – não apenas de bens materiais, mas de atenção, carinho, oportunidades. Com a convivência de meses, por causa dos ensaios, passei a conhecê-las. Eram 140 crianças, conhecia a maioria pelo nome. Algumas, as mais falantes, conhecia além do nome, a história de vida. 
Após duas apresentações em que tudo correu bem, pude assistir, como expectadora, ao espetáculo. E ao olhar para a janela e reconhecer cada rostinho e suas respectivas histórias de vida, não me contive e comecei a chorar. Naquele momento, percebi que meu trabalho havia, direta ou indiretamente, impactado a vida daquelas crianças. Imagina o que receber atenção, educação musical, oportunidades, aplausos e carinho, fazia à autoestima daquelas crianças!
Foi aí que entendi que poderia tocar a vida das pessoas com o meu trabalho. Mas o senso de responsabilidade que tocar a vidas das pessoas tem, só percebi alguns dias depois, na última apresentação. O clima estava ótimo, o sentimento de dever cumprido, as despedidas carinhosas, recebi bilhetes e cartinhas das crianças; na maioria, crianças que eu conhecia mais, aquelas mais falantes. 
Até que um menino que eu nunca havia conversado, daqueles meninos quietinhos que parecem pedir desculpas por estar ali no mundo, sabe?  Este menino se aproximou de mim, e timidamente, me entregou um cartão. Em seguida, sumiu no meio das outras crianças.
Mantenho até hoje o cartão comigo, como um lembrete. Um amuleto, talvez. Algo que me faz refletir sobre a responsabilidade que temos no mundo. Mesmo sem perceber, podemos tocar a vida de alguém, mesmo sem intenção.  Percebi o poder que isso tem, e como todo poder, traz muita responsabilidade.

O singelo cartão, escrito a lápis, me comove até hoje.  Não tive a oportunidade de agradecê-lo. Querido Rogério, de onde você estiver, receba meu carinho e retribuição por um gesto tão lindo! Muito obrigada, você, mesmo sem saber, me ensinou muito. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Vocês não contavam com a minha astúcia!


Além da tristeza de ver pessoas tão geniais partindo em 2014, fico com uma grande questão em aberto: será que pessoas tão geniais estão chegando também?
Quando Rubem Alves partiu, fiquei com uma tristeza engasgada, queria ter enviado para ele um exemplar da Fada de Botas, na apresentação do livro cito a seguinte frase: Como disse Rubem Alves, devemos ensinar as crianças a amar os livros. Queria ter compartilhado com ele um pouquinho da história da fada, e de como ela está espalhando amor aos livros por ai. Mas, por motivos tolos, acabei não enviando o livro a ele ... e ele partiu. Choro engasgado.
Quando vi Manoel de Barros partir  ... chorei solto e me senti  órfã e mais solitária no mundo. Eu não o conhecia, e mesmo assim, eu sabia que ele me entendia. Eu me entendia quando lia suas palavras.  Tive uma tristeza regional, pelo poeta da minha terra. E nesse caso há duas interpretações possíveis para esse regionalismo. Manuel vivia em Campo Grande, onde também estão minhas raízes. Mas, além e, sobretudo, ele vivia nas terras das palavras e dos sentimentos que compartilho. Orfã duas vezes. Quem agora poderá traduzir esse sentimento de carregar água com peneira que é o ato de escrever? Com quem vou compartilhar o gosto pelas coisas desimportantes? Dou graças a Deus, que poetas são eternos e que escrever é uma forma de ficar para sempre. Choro de rios de lágrimas desinúteis...
Ainda nem havia me recuperado desta perda, e Bolaños  resolve partir também. Não estou comparando em importância e arte essas pessoas que cito aqui, só estou compartilhando meus sentimentos.  Chaves tinha a inocência da criança. Chaves fazia rir. Chaves teve o poder de contagiar várias gerações com sua graça non sense. É a arte com o poder de romper fronteiras. Depois de assistir no cinema a biografia do genial Cantinflas, entendi melhor o humor do Bolaños. E me entristeci com sua partida. Lágrimas da criança que se escondia no armário, como se ali fosse um barril. Lágrimas de criança que ficou sem o doce.
Volto, então, para minha pergunta inicial: será que estão chegando a esse Mundo pessoas tão geniais quanto as que estão partindo?
O prêmio Nobel da Paz para Malala, a menina de 17 anos, me diz que sim. Após ler sobre sua história de vida, com apenas 17 e já capaz de mudar o destino de tanta gente, lágrimas de esperança escorrem pelo meu rosto.

Chego a ouvir Deus lá de cima parafraseando o Chapolin Colorado:

- Vocês não contavam com a minha astúcia!!!!





*obrigada Armandinho por traduzir tão lindamente essas desimportâncias.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Acabei de adquirir um GPS que ajuda qualquer pessoa a encontrar seu caminho. Alguém quer carona?


Estamos no fim de mais um ano, tempo de avaliações - O que eu fiz durante esse ano? Muita coisa, sem dúvida. Mas percebo que me desviei do meu caminho. A literatura, tão arduamente colocada na minha vida, acabou ficando negligenciada.
Já aprendi que não adianta chorar pelo tempo passado. Ao invés de lágrimas, preciso de um novo plano para me colocar de novo no caminho certo. E depois de assistir a uma palestra muito inspiradora do querido André Caldeira, chego a conclusão que preciso do GPS - Meu Propósito.
A palestra me trouxe uma série de insights, entre eles, a necessidade de auto avaliação. Onde estou? Estou onde quero estar? Quem sou nesse mundo? Percebi que não estou no lugar que eu gostaria de estar.
Quem já usou um GPS sabe que, ao errar o caminho, ele não fica lamentando sua inabilidade em seguir a rota. Mas, imediatamente, recalcula uma nova rota, mostrando que não há apenas um único e incontestável caminho para se chegar ao destino escolhido. (bela lição, não?)
Com GPS - Meu Propósito recalculado, mudo o rumo e me coloco de novo no caminho que quero estar.

Alguém quer carona?

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

As voltas que a vida dá ... Ou .... As peripécias para ser quem se é.



Há algum tempo, resolvi colocar as palavras na minha vida. A decisão, infelizmente, não foi por decreto: Declaro, para todo e qualquer fim, que a partir de hoje, a palavra existirá na minha vida. Em todos os dias, minutos e segundos.
Não, não foi assim. Sou lenta. Um passo de cada vez. Não sou de arriscar grandes mudanças.
Comecei tendo um blog secreto. Criei um personagem, não era a Fernanda que escrevia, era a outra. Um pseudônimo, um heterônomo, outro eu.  Eu escrevia, mas não era o meu nome que as pessoas liam. Todos os dias, sem faltar nenhum, eu me sentava na frente da tela branca. Não havia desculpa, eu tinha que escrever, mesmo que apenas uma linha.  
Com o tempo, assim que chegava a hora da tela branca, as palavras já esperavam na fila. Nos melhores dias, as palavras nem me deixavam dormir. E no meio de tanta despretensão, as pessoas começaram a chegar. Não era a mim que elas liam, mas eram minhas palavras. Essa era a resposta que eu precisava.
Consegui enxergar que ali havia a possibilidade de um caminho.
E no momento em que deixo de enxergar o caminho, talvez seja a hora de voltar ao início.
Mais uma volta, em tantas voltas que a vida dá.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Do what you love. Love what you do.





O Projeto Criando Laços faz parte desses trabalhos que eu amo. 
Amei participar de cada etapa do projeto. Quem me conhece, sabe como eu gosto do livro O Pequeno Príncipe, e de como ele é importante na minha vida. 
Ao surgir a oportunidade de realizar esse projeto com as crianças do hospital, nem pensei duas vezes. Vivi momentos inesquecíveis na sala do Educação e Cultura. Contar a história do Pequeno Príncipe às crianças e adolescentes, ouvir a história sendo recontada por elas, enquanto faziam as pinturas mais lindas do mundo, foi um presente.
Ouvi, vivi, e vi, com meu coração (que foi assim que a raposa ensinou ao príncipe "só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos") cenas e histórias impressionantes, de crianças e adolescentes que mesmo em um hospital, mesmo em tratamento, mesmo com diagnósticos e prognósticos difíceis, tinham a disponibilidade e a generosidade de estar conosco, vibrando com as aventuras do Príncipe em busca de um amigo.
O resultado do projeto é lindo, tanto a parte visível: duas exposições - uma no Brasil e outra em Nova York, um catálogo com as pinturas, fotos e muitas histórias e um super grafite no prédio da emergência. Quanto a parte invisível, não posso contar. Faço um convite muito especial para que cada um descobra por si, que tal começar por aqui?  www.projetocriandolacos.com.br. 

O catálogo, duas histórias, uma para crianças e a outra para pessoas grandes, também está lá para download. 

Agradecimentos:
Gostaria de deixar meus agradecimentos especiais a todos que participaram desse projeto, a todas as crianças, adolescentes e seus acompanhantes. 
A Ety pela oportunidade e confiança. 
Ao Claudio, Márcia Széliga e Edinha por embarcarem comigo nessa jornada. 
Ao André Mendes que viu além dos desenhos das crianças e fez arte da melhor qualidade. 
A Fabiana, pela organização, paciência, sensibilidade e apoio nos fins de semana, noites, tardes, sem ela eu não teria conseguido. 
A Eliane que apoia minhas ideias.malucas. 
A Bia e ao Guido pelo imenso talento, sensibilidade e disponibilidade. 
Ao Luciano Coelho pelo olhar especial ao captar nossas imagens. 
A Patricia Pinheiro e equipe linda pela competência, disponibilidade e carinho. 
Ao André que me salvou pelo skype. 
Ao James McSill, sem ele eu não teria acreditado no poder de contar histórias. 
E as pessoas que estiveram comigo e acreditaram em mim, mesmo que não estejam mais por perto. 
E finalmente, ao Vinícius, meu filho, razão de tudo.